Ontem fiz uma longa viagem. Para além dos programas sobre futebol que acompanhei, o resto da viagem foi composto por Callas e Piaf. Esta viagem teve como ponto alto, até porque subi 4 níveis do volume, “Milord” de Edith Piaf. Como eu sou um gajo que gosta de partilhar as suas poucas alegrias do dia a dia, partilho convosco “Milord”, cabendo a vós amiguitos, caso queiram ter também um ponto alto no vosso dia, a regulação do volume. Eu por mim já estou a rodar o meu volume em sentido horário…
Os sets de Djs revelam muitas vezes a vasta cultura musical que um Dj tem. Porquê colocar aquela musica ali? Porquê colocar ali uma música do século passado? Porquê colocar ali uma música que ninguém conhece? Era mais fácil colocar só grandes hits que fazem as delícias de toda a gente. É por essas e por outras que “há djs e há djs” e eu pessoalmente gosto mais daqueles que nos abrem os horizontes. No “fluokids” vinha um mix de Joakim em que este misturava as melhores músicas de 2010 para dançar. Por ser de quem era saquei (segue link em baixo) mesmo antes de ouvir os 137 MB. Joakim autor de “Monsters & Silly Songs” e proprietário da Tigersushi Records uma das primeiras editoras da música electrónica que eu conheci e explorei é para mim um referencial de bom gosto. E por entre as muitas músicas que não conhecia e que irei explorar e aquelas que já conhecia e que até já estive para destacar o meu lado mais lamechas levou a melhor. “Don’t you know” é uma maravilhosa maneira de fechar uma pista e dizer: “Amigos vão para casa com as vossas companheiras e façam alguma coisa de jeito. Vão em paz e que o amor vos acompanhe”. Como diz um comentário no link que vos disponibilizo, “Ending in style”. E este comentário caracteriza a música que por ter mesmo muita pinta cai bem naquele alinhamento e que descontextualizado seria um belo peixe mas fora de água. A música pertence ao teclista checo Jan Hammer. Jan ganhou fama ao produzir a banda sonora da série Maimi Vice. Começou a aprender piano aos 4 anos. Aquando da invasão da Checoslováquia pela União Soviética fugiu para os Estados Unidos. Ai completou a formação na Berklee School of Music. Formou o Jan Hammer Group, uma das muitas bandas de suporte para o seu trabalho que criou ao longo da sua vida. Foi com esta que em 1977 apresentou “Don´t You Know” para o álbum “Melodies”, o seu sexto álbum. O sucesso chegou em 1985 com a banda sonora de Maimi Vice e que valeu ao autor 2 Grammys. Nesta última década Jan continuou a sua profícua carreira ao fazer música para tv, filmes, publicidade e jogos.
E já que em baixo me lembrei dos Repórter Estrábico, nada melhor do que recordar outros sons da música portuguesa que preencheram surrealmente a minha adolescência ( aka infância musical). Muitas vezes ouvi estas músicas. Algumas foram repetidas até à exaustão. Lembro-me pelo menos de uma vez ter ouvido "U.N.L.O." dos Zen durante dezenas de minutos em repeat, enquanto saltava ou abanava a minha cabeça compulsivamente (penso que na altura esta música me entrou em casa via a revista "ON" (penso que era assim que se chamava o suplemento do independente, mas poderíamos chama-lo o o Ipsilon da altura). A canção "Agostinho" conheci na R.U.C. no saudoso tempo em que me levantava cedo só para ouvir os programas da manhã desta rádio (tipo o "10 café" (mais uma vez penso que era assim que se chamava) e depois o resto do dia levava com mais R.U.C, e gostava. Já o "Aboio" penso que quem me introduziu também terá sido a R.U.C. ou então foi a "3". Qualquer destas músicas é surreal e merecem uma estima eterna da minha parte:
Uma lição de democracia e flexibilidade intelectual, é o que se vai passar aqui no blog. O criador do blog ataca, o visado - eu - socorre-se do contraditório. Ora, quando e onde? Precisamente agora, aqui no alojamento online do Tio Armindo.
Simpatizo imenso com o Camané!! Cretinice ou "agitação consequente"? O que é certo é que temos música portuguesa, boa música no blog. E outras referências a álbuns de 2010 feitos por artistas portugueses se impõem. Orelha negra à cabeça, Linda Martini, B fachada, Márcia, Aurea, Nuno Prata, Sasseti e Carlos do Carmo, Sasseti Trio, Pedro e o Lobo com a Joana Carneiro a dirigir a Gulbenkian, entre muitíssimos outros. No fado, os trabalhos de Mariza, da Mafalda Arnauth, do Pedro Moutinho (um dos irmãos do Camané), da Cristina Nóbrega e do próprio Camané, obviamente. O tio Armindo não é homem que frequente casas de fado, é mais industrializado e é nesse ambiente que se sente à vontade. Eu cá estou sinto-me bem em qualquer lado.
Mas o Tio é isento, é imparcial e abomina preconceitos. E é inteligente. Por isso gosta de Camané, por isso ouve Camané, por isso publicita Camané. E também eu só poderia apreciar Camané. Avô e bisavô no fado. Ganhou a Grande Noite do Fado em 1979. Lançou o seu primeiro disco em 1995. Correu o circuito lisboeta das casas de fado. Noites houve em que a corrida foi levada à letra. Poucas aparições, pouco à vontade, muita introspecção e timidez. O tempo, o trabalho e a transpiração fizeram justiça ao fadista de Oeiras. É um dos grandes nomes da nova geração do fado português. E é genuinamente e orgulhosamente português. Provou-o mais uma vez ao contribuir decisivamente para o projecto Humanos, cantando Variações, que estando o seu som distante do Fado, era tremendamente influenciado pelo género luso, sendo pública a sua admiração pela rainha do Fado. E Camané mostrou-o. Ambos ostentam com orgulho o país em que nasceram.
E agora, surpresa das surpresas, quem frequentar a movida lisboeta dos concertos, pôde provavelmente encontrar Camané no Super Bock em Stock, no concerto dos The Walkmen, na plateia do espectáculo de Prince e adivinhem lá, adivinhem... A ver e ouvir os aprumados Vampire Weekend.
PS: Nao percam os Broken Social Scene no Youtube, dia 18 de Janeiro!!
O meu PS: Esta é a carta de um leitor indignado não sei bem com quê e que o expressa elogiando-me (ou pelo menos entendo-o como tal, embora só me tenha dado ao trabalho de ler isto uma vez). Como é óbvio e ao jeito dos direitos de antena este espaço foi de exclusiva responsabilidade do interveniente.
Todos os anos as revistas fazem as suas listas de melhores do ano. Todos os críticos revêm o ano para fazerem a sua lista. A rádio australiana Triple J está a pedir aos ouvintes/internautas para votarem naqueles que mais apelaram aos ouvidos. Eu já estou a ouvir as opções que não conheço para fazer a minha shortlist. Quem me quiser acompanhar:
Um colega meu durante todo este ano que passou disse sempre :“Pá gosto é do Camané”. Embora soubesse que ele estivesse a dizer verdade a forma cretina e descontextualizada como o dizia fazia com que a maioria das pessoas pensasse que ele estivesse a gozar. Eu por respeito ao Camané mais do que a esse meu colega dizia sempre: “Pá sim! Eu adoro o novo “single” dele, e embora não goste de fado por aí além “saquei” álbuns dele, da Ana Moura etc….” Hoje deu-me para ouvir durante largos minutos Camané e “A guerra das rosas” ficou definitivamente na cabeça e é uma boa banda sonora para estas presidenciais…
Felizmente era para a causa maior. A segunda música de "É Pra Meninos" teria colocado muita criancinha a chorar. Depois de um ep dedicado à musica popular portuguesa o novo disco de B Fachada trata das criancinhas. Um disco dedicado à infância do mais profícuo cantautor português. Sai de 2009 em grande (um EP e LP) e de certeza que vamos ouvir algo novo dele este novo ano.